Hoje faz 1 semana que conheci dona Olga e hoje mesmo faz 1 semana que dela me despedi.
Dona Olga voltava para a minha cidade no mesmo ônibus de viagem que eu e minha família estávamos e sentou atrás de mim. Num dado momento do caminho, já bem perto da nossa cidade, dona Olga sentiu no estômago as curvas todas da estrada.

Demorei um pouco pra me dar conta do que estava acontecendo, mas logo depois vi que a minha mãe estava tentando ajudá-la. Dona Olga estava bem assustada por estar passando por tudo aquilo e aí foi preciso pedir que o motorista parasse o ônibus assim que fosse possível. Por sorte, logo apareceu um posto de gasolina e lá o ônibus parou. Minha mãe, minha irmã e o motorista desceram acompanhando dona Olga até onde ela pudesse pegar um ar e molhar seu rosto.

Fiquei dentro do ônibus, me sentindo ridícula por não ter feito nada além de dizer pra dona Olga não se preocupar com a bolsa e os documentos dela, que estavam no banco atrás de mim. Pra minha surpresa, nenhuma das quase 40 pessoas reclamou sobre a viagem ter parado. Foi surpreendente pra mim ver todos em silêncio, aguardando até que tudo voltasse ao normal.

Quando todos voltaram pro ônibus, seguimos viagem. Agora, mais perto ainda da rodoviária, mais um mal-estar. Chegamos, finalmente, mas a história só complicava realmente agora.

Desembarcamos e levamos dona Olga até um banco, para descansar. Era domingo de dia das mães e ela vinha de Gramado, sozinha. Quando começamos a conversar mais com ela, percebemos que ela estava passando por algo mais sério do que um forte enjoo de viagem: Ela não tinha bem certeza da cidade em que estava, não lembrava todo o telefone da sua casa, não reconhecia as roupas que vestia e nem a bolsa que carregava e não tinha ninguém na rodoviária esperando para buscá-la.

Foi terrível, pq ela repetia incontáveis vezes a frase "Meu deus, mas o que é isso?! O que está acontecendo comigo??" toda vez que percebia que não estava tendo ajuda da sua memória naquele momento. Nossa ideia era ficar ao lado dela até que alguém viesse buscá-la, mas o telefone da sua casa não foi atendido. Ela sabia seu endereço, o que já era alguma coisa, então se ninguém atendesse as ligações, nós iríamos até a casa dela. Mas e se ninguém nos recebesse?

Depois de muitos minutos, ela abriu sua bolsa procurando por um celular. Não achou. Felizmente ela carregava consigo uma agenda telefônica e foi aí que eu percebi que muito provavelmente não era a primeira vez que dona Olga passava por um conflito desses. Na primeira folha da agenda vimos seu nome, endereço e telefone completos. Foi assim que soubemos pra que número ligar, depois das várias tentativas que ela fez para nos dizer o seu telefone completo. Foi assim também que descobrimos que dona Olga se chamava Olga. O nome dela era a primeira coisa escrita na agenda.

Minha mãe começou a perguntar pra ela quem eram as pessoas na agenda, até que um dos contatos foi apontado como seu filho. Diferente do telefone da casa, neste número alguém atendeu e era mesmo o filho dela. Longos minutos depois, o cara apareceu para buscar dona Olga, em segurança.

"Que bom que existem pessoas como vocês no mundo", dona Olga nos disse. Quando nos despedimos dela, ela fez questão de abraçar cada uma de nós. "A senhora se cuide!", foi o que eu disse pra ela, que concordou comigo logo após ouvir minha recomendação.

Fiquei muito chocada pelo resto do dia com esse acontecimento. Nunca tinha vivenciado algo assim e só podia achar toda a situação muito triste. Hoje eu sei o nome e o endereço da dona Olga, mas tenho quase certeza que ela já não lembra mais da gente e, muito provavelmente, nem da situação tensa que ela vivenciou na viagem de volta que fez há 7 dias.

Eu queria ter escrito este texto no dia em que tudo isso aconteceu e de fato comecei a escrever no domingo passado, mas precisava pensar bem em como retrataria esse ocorrido aqui. Apesar do texto longo, eu tentei resumir a história em seus pontos principais, acredite.

Eu não sei direito como encerrar esse post aqui, então só espero que situações assim aconteçam cada vez menos e que, se acontecerem de novo, que dê tudo certo no fim.

Era isso, gente.
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Update: 13 dias depois desse acontecido, Dona Olga telefonou para a minha mãe. O número havia ficado salvo no celular do filho que foi buscá-la na rodoviária aquele dia. Estou em choque novamente por ter recebido essa notícia. Dona Olga contou que foi a primeira vez que isso aconteceu com ela e que agora ela começaria um tratamento direitinho - além de nunca mais ir viajar sozinha. Ela também agradeceu demais a minha mãe e repetiu que o mundo devia ter mais pessoas como ela.

Obrigada por isso, dona Olga. Fiquei bem feliz. ♥


2 Comentários

  1. Nossa, nem sei o que dizer...
    Minha mãe se chama Olga! E eu moro em Canela, do ladinho de Gramado!
    Imaginei se fosse ela no lugar dessa outra dona Olga... Que sensação ruim!
    Deve ser horrível ver isso, e presenciar isso... Eu passei por uma situação igualmente difícil/complicada/triste na véspera de natal. Estávamos viajando de carro e meu pai teve um início de derrame, não conseguia falar nada! Foi muito horrível, mas felizmente corremos para o hospital e deu tudo certo.
    Ainda bem que acabou tudo bem pra dona Olga também. E que legal da parte dela lembrar de vocês e dar um retorno sobre a ajuda que vocês deram!
    Parabéns pela atitude de vocês!
    :)

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    1. Cássia do céu! A gente mora bem pertinho então! Que situação complicadíssima que tu passou com o teu pai, que bom que tudo ficou bem no final! ^^

      Dona Olga foi incrível, ainda nem acredito que ela nos contatou!

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